História do café: o ouro negro do Brasil


O termo café tem origem árabe. Os árabes denominaram o café de kawha (genérico do vinho),  degenerando para cahueh. A expansão do mundo islâmico e do consumo de café ocorrem praticamente ao mesmo tempo. Como o islamismo proibe o consumo de bebidas fortes, com teor alcoólico, o café passou a substituir o Kawha (vinho). Assim, café tornou-se o vinho do povo islâmico. Se inicialmente o consumo de café pelo povo árabe se dava por razões religiosas, em pouco tempo tornou-se hábito ou prática cultural, entre as mais diferentes classes sociais, expandindo-se por todo o mundo, por seu intermédio. 
Os árabes foram fundamentais na história do café

Atualmente o café ocupa a posição de segunda bebida mais consumida no mundo (perdendo apenas para a água) e serve como base para bebidas, sobremesas e pratos salgados. O Brasil é o maior produtor, exportador e segundo maior consumidor mundial de café. 

O produto é tão consumido e festejado pelo mundo afora que tem 3 datas comemorativas: 
  • 14 de abril (Dia Mundial do Café) 
  • 24 de maio (Dia Nacional do Café). É também o Dia do Barista (especialista em bebidas à base de café) 
  • 1/outubro (Dia Internacional do Café). Data escolhida pela OIC (Organização Internacional do Café) em 2015.
No Brasil, em 2005, a ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café) levou em consideração que é no final do outono que os cafeeiros começam a amadurecer, permitindo início do seu processamento. Assim determinou oficialmente o dia 24 de maio como data de abertura das colheitas por quase todos os produtores brasileiros. A partir daí a data faz parte do Calendário de Eventos do Brasil. Trata-se também de estratégia de aproximação do consumidor ao mercado, estimulando as vendas. 

Para os adeptos do bom e aromatizado cafezinho, todo dia é dia de café. Mas, além de comemorar, que tal conhecer um pouco da História da produção e consumo de café no Brasil e no mundo? 

Café: da Antiguidade aos dias atuais 
Na explicação lendária para o surgimento do caféKaldi, um jovem pastor de cabras, nas montanhas das vizinhanças de um antigo monastério do Yemen, observou que os seus animais ficavam muito ativos, saltitantes e alvoroçados, sem dormir à noite, sempre que comiam as folhas ou frutos vermelhos de alguns arbustos silvestres. Apresentou o fato aos monges que prepararam uma infusão com o misterioso ingrediente. Constataram que a bebida era ideal para mantê-los despertos durante os serviços noturnos. Moradores locais começaram a elaborar chás a partir das tais folhas e frutos. Nascia aí o gosto pelo café.

Historicamente, pelas práticas de rotas comerciais da Antiguidade, o café deslocou-se da África (planícies da Etiópia: Cafa e Enária) até chegar aos continentes europeu e americano. 

Em 575 os árabes começaram o cultivo no Yemen (Arábia).

Os árabes: primeiros interessados em cultivar e comercializar o café

A partir do século VI, vindo do Iêmen (sudoeste da Península Arábica), pelo porto de Mokha o café foi introduzido na Europa, sendo ali cultivado. Nesse processo de expansão os árabes exerceram papel fundamental. Grandes consumidores de café, popularizaram o seu uso ao mesmo tempo em que difundiam suas práticas religiosas pelo mundo islâmico. Mas, o café que tomamos hoje é muito diferente do originário. 

Nos anos 800 algumas tribos africanas utilizavam as cerejas maduras do café que, moídas com gordura, eram utilizadas para fazer tortas

Nos anos 900, com a fermentação da cereja passaram a fabricar uma espécie de vinho aromático. Nessa época apareceu a primeira referência escrita de café, feita pelo médico Rhaze, que a denominou bebida "bunca" o "buncho".

No ano 1000 o médico Avicenne abordou as propriedades medicinais da bebida, que nessa época era elaborada a partir da fervedura da fruta seca, inteira acrescida de água. Descoberta sua propriedade medicinal, eram os médicos que prescreviam seu uso.

Os árabes não apenas passaram a dominar as técnicas de plantio, mas também de preparo e comercialização do produto. Povo culturalmente voltado para os negócios, logo percebeu o potencial econômico do seu “vinho”, o café. Em torno de 1300, por intermédio dos turcos otomanos o café se expandiu para o Ocidente, mas, somente em 1450 chegaria em Meca (cidade sagrada dos muçulmanos).


Os árabes difundiram o consumo de café

Por iniciativa muçulmana, o Kiva Ham tornou-se o primeiro estabelecimento de servir café. Já a partir das primeiras cafeterias o espaço era popularmente frequentado por artistas, políticos e mesmo pessoas comuns para debate de temas cotidianos do Império, entre um e outro cafezinho. 

A prática de torrar os grãos e elaborar a bebida remontam ao século XVI. E o produto tornou-se tão importante que o império otomano criou legislação protecionista dos grãos, de modo que aqueles que tivessem potencial para semeadura não poderiam sair de seu território. 

Assim, somente os grãos torrados circulavam externamente e o contrabando de sementes podia ser castigado com pena de morte. Já no século XVII o consumo de café pelos europeus tornou-se mais expressivo e a partir dos portos mediterrâneos chegou ao ocidente.
Comércio de café entre árabes e europeus - 1690 

Mercadores árabes de café

Mercadores de Café - Sec. XIV

Em 1615, os carregamentos chegavam ao porto de Veneza (Itália), a partir do comércio milenar estabelecido entre os turcos e os venezianos, detentores de centros de recepção de especiarias e artigos de luxo, que distribuíam o produto. 

Pintura de um café em Istambul, Turquia, no século XIX

A moda de frequência da nobreza e burguesia aos cafés também se tornou hábito na Inglaterra e França. Veja a linha do tempo de cafés na Europa Ocidental: 1650, em Oxford (Inglaterra) - primeiro café público 1652, o Pasqua Rosée, em Londres (Inglaterra)
Antigo café Pasqua Rosée, Londres 

Apesar de possuir cerca de 2 mil cafeterias, Londres incorporou a cultura do chá (cultivado nas colônias britânicas), ocasionando assim o desprestígio do café. 
  • 1666, Amsterdã (Holanda) 
  • 1670, Alemanha 1687, o Blue Flask, em Viena (Áustria) 
  • 1688, o Procope, em Paris (França) 
Na França os cafés desempenharam papel muito relevante na vida operária.
Café Procope, Paris: conservando algumas características antigas, 
atualmente o prédio abriga um restaurante
  • 1720 o Florian, em Veneza (Itália) - funcionando até a atualidade, na Praça São Marcos.
Café Florian, Veneza 

Era comum aos cafés a exibição de artistas e músicos, políticos e outras personalidades públicas. Em muitas regiões os cafés seccionavam classes sociais. Geralmente os nobres não gostavam de misturar-se aos de menor prestígio, havendo assim cafés específicos para cada grupo de interesses específicos. 

Em Viena (Áustria) os famosos cafés vienenses ditavam padrão para os demais. Eles davam vida às atividades intelectuais e literárias. Neles era comum a frequência de políticos, revolucionários e intelectuais modernistas. Assim surgiram os modelos de influência alemã, em Munique, Praga e Budapeste, no século XX. 

O café nas Américas 
Na América do Sul as primeiras mudas vieram do Jardim Botânico de Amsterdã para a antiga Guiana Holandesa (Suriname). 

Observando o sucesso do cultivo do café nas colônias holandesas, os franceses tentaram inutilmente conseguir mudas ou sementes repetir o feito em suas colônias. A oportunidade surgiu quando, após o fim de um conflito armado, o prefeito de Amsterdã enviou ao rei Luís XIV, em 1714, um cafeeiro que foi colocado aos cuidados do botânico Jussieu no Jardin des Plants em Paris.
Luís XIV (1638-1715), o Rei Sol da França
A primeira importação realizada com êxito e a propagação comercial nas Antilhas se deve principalmente ao capitão de navio Gabriel Mathieu de Clieu. Ele foi responsável por transporte de mão de obra para cultivo e beneficiamento do café em Martinica, em 1720. Como oficial da Marinha francesa, em 1723 levou mudas de café para Martinica (colônia francesa no Caribe).
Capitão Gabriel Mathieu de Clieu

Logo a França passou a dominar o comércio mundial, por mais de 100 anos. Somente a colônia de Saint-Domingue (Haiti) produzia metade do café consumido na Europa e no Novo Mundo, até 1790. Porém, o processo de Revolução Francesa oportunizou a famosa rebelião dos escravos da colônia haitiana, prejudicando a produção loca e comprometendo a representação da França no mercado mundial de café. 

Na Colômbia as plantas foram deixadas aos cuidados do padre Gumilla e rapidamente prosperaram. Na sua obra "El Orinoco Ilustrado", ele afirmou que "O café é uma fruta tão apreciável, eu mesmo fiz o teste, plantei e cresceu de tal maneira que se viu aquela terra muito apta para dando uma colheita copiosa deste fruto". Dessa safra foram enviados ao Seminário Popayán, em 1732 (Grijalba) que deveriam propagar o cafeeiro na porção sul do oeste da Colômbia.

Padre Gumilla, da Colômbia

Dois novos grandes produtores dos grãos surgem no mercado internacional: Java e as Américas. Nessa fase as primeiras mudas de café chegaram no Brasil. 

A chegada do café no Brasil 
As primeiras mudas de café chegaram ao Brasil em 1727, por intermédio do Sargento-Mor luso-brasileiro chamado Francisco de Melo Palheta, que numa “missão secreta” contrabandeou a planta das Guianas Francesas. Palheta era oficial do governo e militar graduado. 
Retrato de Francisco de Melo Palheta. N. Barsotti

Palheta recebeu a designação do governador da capitania do Maranhão e do Grão-Pará de averiguar as áreas fronteiriças entre o Brasil e a Guiana Francesa, identificando se havia problemas de demarcação. Havia evidências de invasão dos franceses ao território brasileiro. 

Pintura a óleo, de Henrique Cavalleiro, 1943. Palheta plantando as primeiras mudas de café em solo brasileiro

O historiador Ricardo Bueno, autor da obra “Dos cafezais nasce um novo Brasil”, ao citar os pesquisadores do Museu do Café, Bruno Bortoloto e Pietro Amorim, afirma que uma das tarefas de Palheta era efetuar a fiscalização de um tratado que sinalizava a soberania portuguesa nas Guianas.  Outra tarefa seria adquirir e trazer para o Brasil, mediante “todo o disfarce e cautela”, sementes ou mudas de café. Nessa época o domínio da cultura cafeeira estava concentrada em mãos de produtores franceses e holandeses, em suas respectivas colônias. Eram eles que dominavam o mercado europeu. Assim, uma lei francesa proibia a retirada de sementes e mudas de café das colônias, de onde não saíam nem por venda ou por presente. 

Diz a lenda que a esposa do governador Claude de Guillonet D’Orvilliers, da Guiana Francesa, teria facilitado o processo ao apaixonar-se por Palheta. Em momentos de intimidade Palheta teria revelado à nobre dama o seu desejo de conhecer e cultivar o café. Para agradá-lo, a francesa presenteou-o discretamente, com um bom punhado de sementes colocadas em seu bolso. Outros há que afirmam que esse presente nem foi tão discreto, pois ela teria camuflado em um buquê de flores uma muda de café e um punhado das melhores sementes.
Reprodução de tela. Autor Henrique Cavalleiro, em 1943. Fonte: Blog do Museu do Café

Lendas à parte, Palheta teria oficializado o pedido de mão de obra para cuidar de “mil e poucos pés de café e três mil de cacau” ali adquiridas. Na realidade ele trouxe de Cayena cinco pés de cafeeiro e muitas sementes. Nesse caso o presentinho da Madame D’Orvilliers não teve qualquer relevância. O primeiro plantio foi feito na região de Vigia, no norte do Pará e em 1731 o Brasil fez a primeira exportação, diretamente do Maranhão para Lisboa.

Primeiras Mudas de Café (1760), óleo sobre tela de Alfredo Norfini, Museu Paulista da Universidade de São Paulo

Em 1836 e 1837, a cafeicultura superou a produção açucareira, quando o café ocupou a posição de principal produto de exportação do Império. Aos poucos o eixo econômico que se concentrava no nordeste, a partir da lavoura canavieira deslocou-se para o sudeste e a capital do Brasil mudou de Salvador para o Rio de Janeiro. 

O Nordeste, até então rico e próspero, caiu em desgraça, com a falência de muitos senhores de engenho, muito embora muitas famílias tenham conservado a prática do coronelismo em suas relações políticas e sociais até a atualidade.
Encontro de coronéis no Nordeste: visita do Presidente do Estado do Ceará, Dr. João Thomé de Saboia e Silva a Juazeiro do Norte, em 05/12/1917 – Foto: Museu do Ceará – Série Safra 

O plantio de café e o processo produtivo foi beneficiado pelo clima e solo apropriados para a cafeicultura. A lavoura de café desenvolveu-se especialmente na região da Baixada Fluminense expandindo-se ao vale do rio Paraíba (entre as províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo). 

Quadro Plantação de Café (1839) do pintor Johan Jacob Steinmann (1800-1844)

Como o modo de produção era escravista a cafeicultura foi beneficiada por sua estrutura, adotando o sistema de plantation (exploração monocultura em latifúndios exportadores, com base em mão de obra escrava). A rota criada anteriormente, no período de mineração, entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais também contribuiu para facilitar o escoamento do café como mercadoria. 

Arquitetura do Cafezal. Trabalhadores na colheita do café no final do século XIX. É possível observar as características da arquitetura do cafezal a partir do alinhamento dos cafeeiros, da altura de cada pé de café, da conformação da paisagem correspondente

A exploração do solo para o plantio de café não aconteceu sem abalar as estruturas ambientais. Grande parte da mata nativa foi derrubada para dar lugar à lavoura. Os cafeicultores usavam práticas simples de produção. A partir do desmatamento expandiam as áreas agricultáveis com mudas de café. Inicialmente utilizavam a força escrava com ferramentas simples, como foices e enxadas.

Colheita de café (Tijuca-RJ) - quadro de Johann Moritz Rugendas

A aquarela "Carregadores de Café A Caminho da Cidade", de 1826. J. B. Debret. 
Acervo Museu Castro Maya Cândido 

Portinari ficou conhecido como o pintor do café. 

Autorretrato: pinceladas marcadas. Candido Portinari/Cortesia Projeto Portinari/Divulgação

Ele era filho de imigrantes italianos que trabalhavam na colheita. Em suas obras o artista retratou aspectos da cafeicultura brasileira do século XX.
O lavrador de café. 1934, Cândido Portinari
Escravos na colheita. Século XIX

No quadro O café, pintado em 1935, Portinari procurou representar o trabalho de 
negros e imigrantes nos cafezais paulistas. 

Com a chegada dos imigrantes (japoneses, alemães, italianos, etc.) aos poucos a mão de obra escrava foi sendo substituída pela mão de obra assalariada, especialmente após a abolição da escravatura (1888).
Os imigrantes chegam ao Brasil para trabalhar na lavoura do café
Imigrantes em uma fazenda de café em São Paulo, no início do século XX. 
Museu Histórico Ernesto Ricciardi 

As mudas de café necessitam de cerca de 5 anos do plantio à colheita, geralmente feita manualmente. Assim era necessário intercalar outras culturas, especialmente de gêneros alimentícios em torno dos cafezais. 

Uma vez colhidos os grãos de café eram espalhados em terreiros, no processo de secagem. Depois, com o monjolo, o fruto seco era beneficiado. O monjolo era uma espécie de manufatura combinando a força de água com pilões que socavam, beneficiando o café. 

Arquitetura do Núcleo Industrial da Fazenda Conceição, em São Pedro [SP]. Secagem de café em terreiros de uma pequena plantação no início do século XX. Fonte: Arquitetura do Café [por] André Argollo / A. Lalière, 1909

Escravos trabalhando em um terreiro de café, em fotografia de George Leuzinger (1813-1892) de 1870

Descascamento de café a pata do boi (1820), óleo sobre tela de Alfredo Norfini,  Museu Paulista da Universidade de São Paulo
Após essas etapas era muito comum o transporte do produto em lombos de mulas para exportação a partir do porto do Rio de Janeiro.

Mulas transportam as sacas de café até a estação de trem. Marc Ferrez, 1881, coleção particular, foto sobre papel albuminado

Tropa carregada de mercadorias passa pela ponte, em Afonso Cláudio-ES. Foto: APEES 

Desde 1700 que o cultivo e a exportação dos grãos de café eram um investimento da Coroa Portuguesa, tornando-se, a partir daí, produto valioso para a economia brasileira. 

As lavouras de café inicialmente se restringiram ao Norte e Nordeste do País, aos poucos foi descendo o litoral atingindo o Rio de Janeiro, em torno de 1760, por intermédio do desembargador maranhense João Alberto Castelo Branco. Na realidade os principais produtores logo passaram a ser os estados de do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Espírito Santo. 

Fazenda do Secretário, em Vassouras [RJ], um dos mais iconográficos exemplos do período áureo do Vale do Paraíba. Chegou a possuir cerca de 500 mil pés de café e mais de 350 escravos. Litogravura de Louis-Jullien Jacottet, 1861. Domínio público, Biblioteca Nacional Digital

Litografia da Fazenda Ibicaba, de autor desconhecido. Coleção Paulo Levy. O núcleo industrial da fazenda caracteriza um cenário de plena integração entre as técnicas empregadas no processo produtivo do café e a arquitetura correspondente


Arquitetura do Núcleo Industrial da Fazenda Santa Genebra, em Campinas (SP). Os terreirões de secagem de café nas proximidades da sede, da tulha e da casa de máquinas eram típicos do empreendimento cafeeiro. In: Engenhos e Fazendas de Café em Campinas (Séc. XVIII - Séc XX). Uso amparado pela Lei 9619/98

As lavouras se expandiram principalmente nas terras roxas do Oeste paulista, com intensificação a partir da década de 1860, fortalecendo o Porto de Santos que se destacou como principal base de escoamento da produção.

Embarque do café no Porto de Santos, em fotografia de 1880 feita por Marc Ferrez (1843-1923) 

Enquanto os “Barões do café”, grandes latifundiários, enriqueciam, também enchiam os cofres públicos, dando sustentação ao Estado imperial. Logo os negócios de café se tornavam mais complexos, exigindo mecanismos mais modernos de operação. Os comissários do café davam suporte, intermediando as relações entre os latifundiários e os exportadores, controlavam as vendas e garantiam acesso a créditos visando a expansão produtiva. Também administravam os processos de importação de produtos. 

Café sendo transportado pelos comissários até o navio

Embarque de café no Porto de Santos - 1908

O café modernizou o Brasil 
Iniciada no século XVIII a produção brasileira de café atingiu o seu auge somente no século XIX, tornando-se em principal produto econômico do Brasil Imperial. Nesse período era impulsionada a produção em escala comercial, especialmente voltada para a exportação, atendendo aos mercados consumidores cada vez mais crescentes nos Estados Unidos e Europa.
Fotografia de Marc Ferrez (1843-1923) retratando escravos em fazenda de café no Brasil (c.1895)

Em 1808 (início do século XIX) ocorreu a mudança da família real portuguesa para o Brasil, instalando-se no Rio de Janeiro que começou a se modernizar. Muitos fazendeiros e comerciantes acumularam capital, aplicando-o na lavouras de café, ampliando sua riqueza. 

A cafeicultura foi a principal responsável pela geração de divisas necessárias para garantir a sustentação do Império e da República Velha, servindo como base econômica, política e social também no século XX, quando atingiu o posto de principal produto de exportação. 

Em 1830 o Brasil já se destacava no cenário mundial como o maior produtor e exportador, posição que ocupa até os dias atuais, seguido do Vietnã e da Colômbia. Foram os lucros advindos da economia cafeeira que alavancaram o processo de modernização do Brasil. 

O auge da cafeicultura marcou a chegada dos trens, a partir da construção de ferrovias para o transporte do café, ampliando a velocidade do transporte. As ferrovias ainda cumpriram o propósito de integrar as regiões do Império. Somente em São Paulo foram construídas cinco estradas de ferro ligando as regiões produtoras à capital e ao porto de Santos, visando escoamento do café. 

No Espírito Santo o processo foi mais lento, porém em 1887 inaugurava-se a primeira ferrovia capixaba: 71 quilômetros de trilhos ligavam Cachoeiro de Itapemirim a Castelo-Reeve (próximo a Alegre). 

Em 1913, a pequena Estrada de Ferro Caravelas (encampada pela Estrada de Ferro Leopoldina) ampliou seu trajeto até Espera Feliz, em Minas Gerais. 
Cachoeiro do Itapemirim-ES

A cafeicultura também foi o grande propulsor da urbanização de grandes cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e arredores, abrindo caminhos para o processo de industrialização do país e desenvolvimento do sistema bancário. Propiciou ainda o fortalecimento da educação e cultura no país.
1922: Semana da Arte Moderna
Mário de Andrade (de pé, à esquerda) e Oswald de Andrade (sentado, à frente),
 com demais organizadores e participantes da Semana de Arte Moderna 

Nesse período, também o Brasil inaugurava cafeterias que mantêm a tradição do passado.
Fundada em 1894, no Rio de Janeiro, a Confeitaria Colombo é 
um dos mais antigos salões de café e chá do Brasil 

A urbanização e modernização das cidades brasileiras se deu em função dos lucros auferidos pela cafeicultura.
São Paulo: Rua Libero Badaró, na década de 1930
São Paulo: década de 40. Vale do Anhangabaú. Foto de Werner Haberkorn. 
Às margens, os dois Palacetes Prates
São Paulo: 1916 - Rua Boa Vista, no centro histórico
São Paulo: 1929 - Rua 15 de Novembro, região da Sé. 
Visão a partir da praça Antonio Prado, início da avenida São João
São Paulo: década de 1920 - Antigo Viaduto do Chá, ao fundo Palacete Prates
São Paulo: 1909 - Parque Antarctica. A Sociedade Esportiva Palmeiras (Palestra Itália) seria fundada somente em 1914 e o que temos na foto, o Parque Antarctica, seria posteriormente adquirido para abrigar a sede do novo clube em 1920. Na foto, possivelmente, o que viria a ser a avenida Francisco Matarazzo
São Paulo: Vista do Vale do Anhangabaú para o Theatro Municipal na década de 1920 
(Foto: Flickr / Arquivo Nacional / Fundo (Fotografias Avulsas)
Rio de Janeiro: Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro.
 foto de Marc Ferrez de 1895
Rio de Janeiro: Rua Primeiro de Março em foto de Marc Ferrez (década de 1890)
Rio de Janeiro: Avenida Central em construção e o morro do Castelo, 
demolido, definitivamente, em 1922
Rio de Janeiro: foto de Augusto Malta, de 1905, 
de uma das etapas de inauguração da nova via carioca
Rio de Janeiro: à esquerda, a sede da AECRJ. Ao lado, prédio do cinema Pathé. 
Mais à direita, edifício sede do Jornal do Brasil
Rio de Janeiro: prédio do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia. 
A construção teve seu início em 1905
Rio de Janeiro: A Avenida Central nos primeiros anos após sua inauguração

Atualmente a cafeicultura nacional segue a leis rigorosas, que auxiliam na preservação do processo de fabricação, garantindo a qualidade dos grãos. As leis do café estão entre as mais exigentes do mundo e visa garantir o respeito à biodiversidade e aos trabalhadores no processo produtivo. A história evidencia, assim, a razão do café ser o ouro negro brasileiro.
  • O café é a segunda bebida mais popular do mundo, a primeira é a água; 
  • O café é uma fruta; 
  • O café mais caro do mundo (R$ 6.600 por quilo) é o Kopi Luwak (café de civeta), produzido na Indonésia. Passa por um processo de fermentação animal: o civeta come as cerejas do café depois suas fezes são coletadas e higienizadas. As enzimas secretadas pelo animal durante a digestão imprimem um sabor específico à bebida. 
  • A cafeomancia é uma técnica que muitas culturas praticam, efetuando a leitura do futuro a partir da borra de café; 

  • São mais de 25 tipos de café existentes no mundo; 
  • A palavra “Cappuccino” surgiu no século XVI em referência à Ordem dos Capuchinhos, religiosos que usam capuzes (capuccinos , em italiano); 
  • Conhecido desde a Antiguidade, até o século XVIII o café era de consumo exclusivamente doméstico; A borra do café serve como adubo; 
  • A borra do café é útil para tirar o mau cheiro da geladeira; 
  • A cafeína, administrada corretamente, amplia a concentração, evita a depressão e o mau humor; 
  • O café é consumido por 9 entre 10 brasileiros com mais de 15 anos; 
  • Cada brasileiro consumiu cerca de 4,80 quilos de café torrado em 2021; 
  • O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café, ocupando uma área de 2,3 milhões de hectares; 
  • O Brasil é e o segundo maior consumidor de café no mundo; 
  • O Brasil possui aproximadamente 300 mil produtores de café, sendo 80% oriundos de cafeicultura familiar; 
  • O café está presente em todas as regiões do país, em quase 1,5 mil municípios (cerca de 25% dos municípios brasileiros), gerando direta e indiretamente mais de 8 milhões de empregos; 
  • O Sudeste brasileiro se destaca no cultivo de grãos de café, sendo Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo destaques no ranking nacional, seguidos pela Bahia; O Cup of Excellence (concurso internacional que classifica a qualidade dos grãos de café) elegeu o café brasileiro como o melhor do mundo (especialmente o cultivado na região da Mantiqueira (Minas Gerais); 
  • O consumo de café no Brasil é maior nas residências e representa cerca de 64% do mercado; Os estabelecimentos que comercializam café no Brasil comemoram um aumento de 34% no consumo fora de casa, com destaque para cafeterias e padarias. 
Como citar essa publicação
ARAUJO E SOUZA, Maria de Cássia. Café: o ouro negro do Brasil. Disponível em: https://tocdemestre.blogspot.com/2022/05/historia-do-cafe-o-ouro-negro-do-brasil.html.
Acesso em: ___/___/___

Referências:

PESSOA, Marilia. Dia do Café: Veja frases para compartilhar e celebrar o dia dessa bebida especial. Disponível em: https://interior.ne10.uol.com.br/entretenimento/2022/05/15013566-dia-do-cafe-veja-frases-para-compartilhar-e-celebrar-o-dia-dessa-bebida-especial.html

Dia Mundial, Internacional ou Nacional do Café? Disponível em: https://www.graogourmet.com/blog/dia-mundial-internacional-ou-nacional-do-cafe/

VALENÇA, Julianna. Dia do Café 24 de maio: Que dia é comemorado o Dia Nacional do Café? Qual o café mais caro do mundo? Saiba curiosidades sobre o café e mais. Disponível em: https://ne10.uol.com.br/entretenimento/cultura/2022/05/15013136-dia-do-cafe-24-de-maio-que-dia-e-comemorado-o-dia-nacional-do-cafe-qual-o-cafe-mais-caro-do-mundo-saiba-curiosidades-sobre-o-cafe-e-mais.html

Brasil comemora O Dia Nacional do Café. Disponível em: Https://revistaoeste.com/agronegocio/brasil-comemora-o-dia-nacional-do-cafe/

Ciclo do Café no Brasil – Resumo, características e período. Disponível em: https://escolaeducacao.com.br/ciclo-do-cafe/

Dia Nacional do Café: descubra tudo sobre essa data! Disponível em:

https://blog.coffeemais.com/dia-nacional-do-cafe-descubra-tudo-sobre-essa-data/

O Dia Mundial do Café é comemorado anualmente em 14 de abrilDisponível em: https://www.amambainoticias.com.br/2022/04/14/14-de-abril-dia-mundial-do-cafe-4/

TAVARES, Lucas. Você sabe como o café chegou ao Brasil? Contrabando! Disponível em: https://www.graogourmet.com/blog/voce-sabe-como-o-cafe-chegou-ao-brasil-contrabando/

SANTOS, Tales. Raízes do café no Brasil. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historia/o-cafe-no-brasil-suas-origens.htm

DUTRA, Rafaela. A chegada do café ao Brasil: ” Os valiosos frutos de uma infidelidade.” Disponível em: https://botucatuonline.com/a-chegada-do-cafe-ao-brasil-os-valiosos-frutos-de-uma-infidelidade/

O reinado do café - Cachoeiro atraiu as primeiras ferrovias. Disponível em: https://morrodomoreno.com.br/process-materia-categoria.php?m=o-reinado-do-cafe-cachoeiro-atraiu-as-primeiras-ferrovias.html

BRAZ, Mariana. Café - O ouro negro. Disponível em: https://arquitetandoestilos.com/receitas-com-cafe/

S. Aldana. Historia del café. https://www.timetoast.com/timelines/historia-del-cafe-6e376acb-5b76-418c-ac2b-0f3d58fc51be

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